Agentes de IA e Perspetiva Humana
O potencial dos agentes de IA para partilhar experiência, perspetivas e conhecimento
Por Miguel Campos · · 6 min

A forma como partilhamos o nosso conhecimento define a evolução da nossa espécie. Historicamente, a transmissão começou pela via oral, em redor da fogueira. Mais tarde, a escrita e os livros permitiram estruturar e eternizar argumentos. O vídeo e o áudio trouxeram o poder da demonstração, da presença e da personalidade.
Hoje, perante o avanço da Inteligência Artificial, é tentador anunciar os agentes como a "próxima etapa inevitável" desta linha cronológica. Mas, no Foral, vemos as coisas de forma diferente. Em vez de defendermos que os agentes são apenas um novo formato de transmissão, acreditamos que eles permitem uma nova relação entre a pessoa, o seu conhecimento e quem o procura.
A diferença pode parecer subtil, mas é fundamental. A IA não serve apenas para "capturar e representar perfeitamente" um cérebro humano. Serve para criar um espaço vivo de debate, aperfeiçoamento contínuo e resolução de problemas concretos do dia a dia, desde que aliada à perspetiva humana.
Prudência e nuance: o verdadeiro trunfo humano
Um modelo de linguagem genérico (LLM) possui um volume massivo de informação factual (e não só), uma vantagem face aos humanos. No entanto, o valor do conhecimento humano não está apenas nas respostas que um especialista dá, mas na sua capacidade de reconhecer quando não sabe responder, de assumir a responsabilidade pelo que diz e de mudar de opinião perante novas evidências.
Se um agente não conseguir reproduzir estas características — a prudência, as nuances e as dúvidas —, não estamos verdadeiramente a amplificar o conhecimento do especialista. Estamos apenas a multiplicar afirmações feitas em seu nome.
O agente de IA funciona como uma ponte bidirecional: permite ao criador descobrir lacunas no seu raciocínio através das interações, ao utilizador confrontar interpretações diferentes, e ao próprio sistema tornar explícitas incertezas que estariam escondidas numa narrativa aparentemente completa. O conhecimento evolui não porque a IA o reproduz automaticamente, mas porque facilita um processo contínuo de escrutínio e adaptação.
Para além do livro e do vídeo: acessibilidade e rentabilização
Os meios tradicionais de partilha de conhecimento exigem um esforço monumental. Escrever um livro ou gravar e editar um curso em vídeo requer centenas de horas e um investimento financeiro considerável, o que cria uma enorme barreira à entrada. Além disso, o autor de um livro nunca saberá com certeza como o leitor vai aplicar aquela informação ao seu caso concreto.
Com a criação de agentes, a rentabilização do conhecimento torna-se muito mais fácil e acessível. Um perito já não precisa de dar a cara em dezenas de vídeos ou fechar-se durante meses a escrever. Pode estruturar a sua perspetiva e permitir que o seu agente a comercialize 24 horas por dia, adaptando-a à dúvida exata de quem o consulta. Estamos a construir o Mercado para possibilitar esta nova forma de partilha e comercialização do conhecimento.
A identidade do Foral: território, factos e perspetiva humana
É aqui que a visão do Foral se demarca de outras plataformas. Não estamos apenas a tentar criar réplicas de especialistas. Estamos a construir uma infraestrutura que aproxima o conhecimento humano, empresas e instituições, informação sobre o território e ferramentas capazes de ajudar a tomar decisões.
Esta abordagem ganha uma importância vital quando olhamos para o interior do país. O Foral atua como um elo tecnológico que une o território: permite que as pessoas e os peritos locais partilhem o seu saber profundo, protegendo e preservando a identidade e o conhecimento da região. Em simultâneo, reduz a barreira para quem vem de fora. Ao cruzar o saber local, muito específico, com dados rigorosos, torna-se incrivelmente mais fácil para quem quer investir, reabilitar património ou mudar-se para o interior, ligando todo o país de forma mais inteligente e coesa.
Imagine um arquiteto experiente a partilhar conhecimento sobre a remodelação de propriedades rurais num município específico. Um livro explica o processo. Um vídeo mostra exemplos. O agente criado no Foral faz algo totalmente diferente: ele representa a metodologia e a perspetiva desse arquiteto, mas também consulta fontes urbanísticas atualizadas, identifica os documentos oficiais necessários para aquela região e distingue o que é uma regra geral daquilo que exige uma avaliação presencial.
Não se trata apenas de consultar uma perspetiva humana, mas de a confrontar com informação verificável e com o contexto concreto da decisão do utilizador.
A ciência da extração e o desafio da representação
Para trazer o conhecimento tácito de um especialista para um modelo, apoiamo-nos na ciência, mas com total consciência das suas limitações.
A literatura oferece-nos ferramentas valiosas, como o Critical Decision Method (Klein et al., 1989), que nos permite entrevistar o especialista e estruturar as heurísticas que ele usa sem perceber. Contudo, a extração de conhecimento não garante automaticamente a sua representação fiável num LLM.
Estudos recentes (como os de Park et al., 2024) demonstraram que agentes alimentados por entrevistas qualitativas conseguem replicar atitudes e consistência em inquéritos com uma taxa assinalável. Mas dar respostas consistentes a um questionário não é o mesmo que reproduzir o julgamento de um profissional perante situações novas, complexas e com consequências reais.
É exatamente esse o desafio técnico e de produto que estamos a resolver no Foral: transpor a barreira entre mapear uma atitude e simular uma competência rigorosa.
Transparência e confiança na IA
Existe o risco real de o sistema misturar a perspetiva do humano e a interpretação factual da IA até o utilizador deixar de conseguir distinguir as duas. Por isso, a transparência no Foral não é apenas uma funcionalidade para evitar "alucinações" — é uma característica central e fundacional do produto.
O utilizador saberá sempre, com fronteiras bem definidas:
- O que o especialista/criador disse explicitamente (a sua metodologia e opinião).
- O que é informação oficial ou dados do território cruzados pelo Foral.
- O que o sistema sintetizou com base no material original.
- O que está fora do âmbito (quando o agente tem de admitir: "Neste ponto, o arquiteto aconselha sempre uma visita ao local").
A confiança não surge por decreto. Um estudo recente (publicado na Scientific Reports em 2026) revelou que, embora exista uma resistência inicial ao aconselhamento por IA, essa barreira diminui consideravelmente quando os participantes tiveram oportunidade de avaliar as respostas, sugerindo que a utilidade percebida dos conselhos pode influenciar a aceitação da IA.
A nossa tese fundadora no Foral é esta: é possível potenciar a confiança na IA ao aliar a perspetiva humana a modelos de Inteligência Artificial que produzem conteúdo devidamente ancorado em dados verificáveis e factos do território.
O futuro do conhecimento partilhado não passa por substituir o humano pela máquina, mas por dar às pessoas as ferramentas para integrarem as suas perspetivas, de forma honesta, num mundo de informação cada vez mais complexo. E é esse mundo, e esse país, que estamos a construir no Foral.